Autora: Christopher R. Browning
Título: Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland [O Batalhão Policial de Reserva 101 e a Solução Final na Polónia]
Local de publicação: Nova Iorque
Editora: Harper Collins
Ano de publicação: 1992
Número de páginas: 298
Palavras-chave: Holocausto, Solução Final, Polónia
Índice
Ilustrações
Prefácio
1. Uma manhã em Józefów
2. A polícia da ordem pública
3. A polícia da ordem pública e a Solução Final: Rússia 1941
4. A polícia da ordem pública e a Solução Final: deportação
5. Batalhão Policial de Reserva 101 [Reserve-Polizei-Bataillon 101]
6. Chegada à Polónia
7. Iniciação ao assassínio em massa: o massacre de Józefów
8. Reflexões sobre um massacre
9. Łomazy: O ataque da segunda companhia
10. As deportações de agosto para Treblinka
11. Fuzilamentos de finais de setembro
12. A retoma das deportações
13. A estranha saúde do Capitão Hoffmann
14. A “caça ao judeu”
15. Os últimos massacres: “Festa da Colheita”
16. Rescaldo
17. Alemães, polacos e judeus
18. Homens comuns
Posfácio
Apêndice: Fuzilamentos e deportações pelo Batalhão Policial de Reserva 101
Notas
Índex
Sinopse
Ordinary Men é um estudo sobre o envolvimento do Batalhão Policial de Reserva 101 no Holocausto. Esta unidade da Ordnungspolizei (polícia alemã entre 1936 e 1945) era constituída por cerca de 500 polícias de Hamburgo. Em 1942, foi enviada para a Polónia ocupada, onde participou em fuzilamentos em massa de judeus (os massacres de Józefów e Łomazy), nas deportações para os campos de concentração e extermínio e em operações de “caça aos judeus”. A principal fonte do estudo são os interrogatórios levados a cabo pelo Ministério Público de Hamburgo entre 1962 e 1967 aos 210 membros do batalhão que, sobrevivendo à guerra, retomaram as suas vidas sem enfrentarem problemas com a justiça. Aliás, a investigação judicial levada a cabo nos anos 60 acabou por se traduzir em penas raras e irrisórias.
O interesse de Browning pelo Batalhão 101 prende-se com o caráter “atípico” destes homens em relação ao que se normalmente se associa a criminosos de guerra e antissemitas fanáticos. Na altura dos acontecimentos, eram homens de meia-idade, em grande parte pais de família, que não tinham sido considerados aptos para atividades militares (daí estarem numa unidade de reserva). Vinham das classes operária e média-baixa e não tinham sido expostos a vivências que normalmente potenciam a crueldade do indivíduo. Não tinham passado pelas organizações de doutrinação da juventude mais fanáticas do regime, não tinham participado nas milícias nazis nem nas organizações de elite do regime, nem tinham tido experiência de combate. Em suma, não eram nazis fervorosos nem soldados embrutecidos pela guerra. No entanto, num espaço de tempo reduzido, tornaram-se assassinos eficazes na execução da “Solução Final”. Browning relata uma ocasião em que o comandante deu a possibilidade de não participação numa matança aos que considerassem a tarefa demasiado dura; no entanto, apenas 12 em 500 optaram por ficar de fora. A análise dos testemunhos destes homens leva o historiador a argumentar que a motivação principal dos homens do batalhão de Hamburgo para cometer os crimes de guerra não se encontra necessariamente no antissemitismo, mas na disposição para a obediência à autoridade e para ceder à pressão de grupo.
A análise de Browning dialoga com as célebres experiências conduzidas pelo psicólogo Stanley Milgram, nos anos 60, na Universidade de Yale, com o intuito de medir a disposição do indivíduo de obediência à autoridade. Milgram, influenciado pelos debates gerados pelo julgamento de Eichmann em Jerusalém, delineou as experiências como forma de investigar a “psicologia do genocídio” e perceber se alguns criminosos de guerra “apenas” obedeciam a ordens superiores. Perante a ordem de dar choques elétricos a um participante como forma de “treino” (choques que, se fossem reais, o que não era revelado, poderiam levar à morte), um número muito elevado de participantes obedecia, ainda que, inicialmente, com alguma relutância.
Ordinary Men é uma obra de grande impacto nos Estudos do Holocausto, que acaba por convergir com a teoria de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal: os maiores crimes da humanidade podem ser cometidos por pessoas extremamente banais. O estudo tem também muitos detratores, entre os quais se destaca Daniel Goldhagen, que acusou Browning de ignorar algo que o autor considera específico da cultura política alemã: o antissemitismo. Goldhagen escreveu aliás o controverso Hitler’s Willing Executors (1996) para refutar as teses de Browning.
Excerto
O batalhão tinha ordens para matar judeus, mas cada indivíduo não. No entanto, 80 a 90 por cento dos homens começaram a matar, embora quase todos – pelo menos inicialmente – estivessem horrorizados e enojados com o que estavam a fazer. Romper fileiras e sair, adotar um comportamento abertamente inconformado, estava simplesmente fora de questão para a maioria dos homens. Era mais fácil disparar.
Porquê? Em primeiro lugar, ao romper fileiras, os não-atiradores deixavam o “trabalho sujo” para os companheiros. Como o batalhão tinha que disparar mesmo que os indivíduos não o fizessem, recusar-se a disparar significava recusar a parte desagradável de um dever coletivo. Na verdade, era um ato antissocial em relação aos companheiros. Os que não disparavam corriam o risco de isolamento, rejeição e ostracismo – algo muito desconfortável no contexto de uma unidade coesa estacionada no estrangeiro entre uma população hostil, de modo que o indivíduo praticamente não tinha a quem recorrer para apoio e contacto social.
Essa ameaça de isolamento era intensificada pelo facto de que não participar também poderia ser visto como uma forma de censura aos companheiros: o não-atirador estava potencialmente a indicar que era “demasiado bom” para fazer tais coisas. A maioria dos não-atiradores, embora não todos, tentava intuitivamente diluir a crítica aos companheiros que era inerente às suas ações. Não alegavam que eram “demasiado bons”, mas que eram “demasiado fracos” para matar.
Tal comportamento não representava nenhum desafio à estima dos companheiros; pelo contrário, legitimava e sustentava a “dureza” como qualidade superior. Para os ansiosos, tinha a vantagem adicional de não colocar nenhum desafio moral às políticas assassinas do regime, embora colocasse outro problema, já que a diferença entre ser “fraco” e ser “covarde” não era grande. […]
Lidar com as contradições impostas pela consciência, por um lado, e pelas normas do batalhão, por outro, levou a muitas tentativas atormentadas de compromisso: não disparar sobre crianças no momento, mas levá-las para o ponto de ajuntamento; não disparar em patrulha a não ser que estivesse algum “escrupuloso” que pudesse relatar tais “melindres”; levar judeus para o local de fuzilamento e disparar intencionalmente ao lado. Apenas os muito excecionais permaneciam indiferentes às provocações de “fraco” por parte dos companheiros e conseguiam viver com o facto de serem considerados “ninguém”.
(pp. 184-186)
Outras obras de Christopher R. Browning
The Path to Genocide: Essays on launching the Final Solution. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.
Nazi Policy, Jewish workers, German Killers. Cambridge and New York: Cambridge University Press, 2000.
Collected memories: Holocaust History and Postwar Testimony. Madison, Wis. and London: University of Wisconsin Press, 2003.
Remembering Survival: Inside a Nazi Slave-Labor Camp. New York: W.W. Norton & Co., 2010.
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